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Das internas

Entries in ensaio (10)

Quinta-feira
Dez082011

o q nunca foi nem será só seu

vou me desdobrar em várias respostas. uma coisa me ocorre muito de cara: a contracapa do (meu livro de poesias) “Sala de Espelhos”:

vou escrever este livro inteiro para você, entretanto
vc sabe q será lido por todos e
q nunca foi nem será só seu; q nada do q digo aqui
é dirigido a vc, pq isto não é uma carta, pq
nada tenho para vc, é tarde demais. mas queria q soubesse,
pq agora q estou vivo tenho tanto a dizer, ainda qdo vc não venha
a me dizer as coisas q quisera ouvir. ainda qdo olhar se veja projetada
aqui não me venha pedir explicações não interprete
palavras, all that is seen
or seems is just a dream
within a dream, isto é
apenas uma sala de espelhos
num circo de vidas
ceci n’est pas une pipe
e nem mesmo representa um.

“comunicação”, vc me diz, no entanto este texto ressoa
apenas tuas próprias palavras: nada do q eu disse, nada
do q quisera dizer: nenhum som foi
possível aqui.
tenho um comentário sobre o que não está escrito nesta poesia.

a primeira parte é ao mesmo tempo uma carta de despedida para um amor perdido
(como eu teria escrito agora, se estivesse inspirado como estava naquela época)
mas é também o paradoxo que eu acho que quase todo texto tem:
eles (textos) existem, na cabeça do autor, em função de alguma coisa,
são (por vezes) dirigidos a alguém ou provêm de algum ‘fato’,
por mais que tornemos as coisas ficcionais, por mais que seja um fato imaginado;
além disso, sei que cada um terá uma leitura própria mas, paradoxalmente,
o livro publicado não ‘pertence’ mais ao autor nem a um leitor - ele é a soma de tudo
o que quiserem ler nele, e as leituras transcendem qualquer ‘desejo’ do autor quanto a dizer isso e aquilo;

daí a ideia seguinte, de que cada leitor se projeta na leitura, e os textos viram espelhos,
então, de certa forma, o “sentido original” do que eu possa escrever
fica sempre “por trás” daquilo que cada um vê ali, fica oculto pelas palavras,
embora só elas existam - palavras - e só elas ‘falem’ num livro.
mas não é a mim que cabe explicar nada, eu só disse aquilo que disse,
e eu só disse aquilo que você possa ter lido.

o que vem depois não é mais nem carta nem está falando com o leitor,
é minha tese de doutorado escrita em umas 6 estrofes,
quando eu cito ao mesmo tempo Poe e Magritte e, citando os dois,
com umas poucas palavras no meio eu falo sobre
minha teoria de que a linguagem não pode ‘representar’ nada,
que há uma distância intransponível entre a coisa-em-si (lá na Filosofia)
e nossa representação dessa coisa, e que, dream within a dream,
estamos para sempre presos nessa cadeia de remissões,
nessa (outra) sala de espelhos.

o quadro de Magritte é aquele famoso, em geral chamado mesmo de “Ceci n’est pas une pipe”,
http://en.wikipedia.org/wiki/File:MagrittePipe.jpg
mas Magritte o chamou de “A traição das imagens”, e, até onde consigo pensar,
ele olhava para a mesma coisa que eu olho (como teórico) :
o quadro é só a representação do objeto, nunca o objeto em si,
e aquela representação não contém *todo* o objeto - há muitas variações possíveis
em torno do cachimbo.

(incidentalmente, Magritte gostava muito de Poe, mas ninguém nunca vai saber
se foi por isso ou não que eu citei Poe junto a Magritte na poesia;
na verdade, uma vez que existe uma remissão, não me cabe dizer se
fiz de propósito, se só percebi depois ou se, como Magritte, eu também vejo ecos de Poe
aqui e ali)

e a ‘tese’ termina enunciando o paradoxo que em geral se coloca:
se um leitor só vai encontrar no texto aquilo que ele traz consigo,
se o texto é incapaz (no limite) de enunciar algo distinto da leitura,
então o que chamamos de “comunicação” é falso.

como no quadro de Magritte, contudo, o paradoxo da poesia (e do livro)
está no fato de que Magritte obviamente pintou um cachimbo e eu
obviamente
escrevi um livro.

(deixo vocês com a imagem do Gato de Alice, bem Schrödinger…)
Terça-feira
Out182011

coloque-se frente a uma tela em branco

Coloque-se frente a uma tela em branco. Sob seus dedos, você tem todos os textos possíveis – é uma combinatória, uma sequência de sequências finitas de teclas pressionadas. Escrever é trazer para Dentro parte do que está Fora.

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Segunda-feira
Abr112011

Keith Jarrett, Municipal, Rio, 9 de abril de 2011

quando você sabe que um improviso terminou? se você toca um instrumento solo, quando você diz ‘acabou’? como você ouve um improviso, um solo, e diz ‘isso foi muito bom’, ou, pelo contrário, você pensa ‘não teve foco’?
levei anos para chegar a estas perguntas. espero que não haja uma só resposta para elas: John Cage escreveu: “vocês me perguntam qual o propósito da Arte; se houver um só propósito e 100 artistas, o que os outros 99 ficarão fazendo?”. é uma das coisas mais relevantes já ditas sobre Arte; não lembro das outras 99 agora.
um improviso termina com um sentimento de ‘closure’, fechamento. isso vale para um texto, um romance, um filme.
quando eu toco, quando eu escrevo, digo que ‘acabei’ (de improvisar, de colocar idéias em um texto) quando um conjunto de sentimentos-sons-palavras parece ter se esgotado. qualquer coisa ‘depois’ me soaria redundante.
você diz que um solo do Keith, ou de qualquer outro músico, foi ‘muito bom’ quando você tem tempo de estrada suficiente para ver uma estrutura (reconhecer padrões) no solo; ver que uma estrutura  - uma música, um tema - foi desenvolvida e, em certo momento, atingiu um ápice, para, depois, chegar a seu fechamento.
eu sei: não é possível dizer como descobrir um ‘padrão’ em um solo, nem definir qual ‘estrutura’ Jarrett estava desenvolvendo a cada peça que tocou; o ‘ápice’ pode ser sentido pelo Municipal inteiro como um “aahh!”, mas não pode ser escrito. e ‘fechamento’… não é ‘quando termina’, mas sim quando você sente, dentro, que algo foi concluído: acabou. aplausos.
a impossibilidade de definições permite que haja várias formas de música, permite a pluralidade que a cultura de massa tenta sucessivamente negar. a cada solo, a cada improviso que nunca se repetirá, Keith Jarrett nega a música como linha de montagem que nos ensurdece, hoje.
preciso dizer duas coisas antes de ‘concluir’: ao entrar no palco, na primeira peça, e, mais uma vez, num momento de irritação durante a segunda metade do espetáculo, Keith puniu a plateia com uma cacofonia desagradável de sons; foi constrangedor, como uma criança dizendo palavrões gratuitos, mas suponho que, naquele momento, tenha sido a forma que ele encontrou para dizer “seus imbecis, eu estou aqui tentando lhes dar algo de belo, algo único, algo que é parte de minha alma e vocês estão tossindo, falando besteiras, alguém tirou uma foto, vocês são crianças mal educadas e eu vou punir vocês”. considero-me punido. (e, não, não adianta argumentar que ‘aquilo’ era música - não era não. era a versão tecnicamente melhorada dos exercícios que faço para aquecer as mãos antes de tocar; perdemos pontos, todos, por não ficarmos em silêncio sepulcral depois da bronca dele para que ele soubesse que, sim, entendemos que havíamos sido punidos)
a outra coisa é que, embora várias peças curtas foram belas, houve apenas duas em que Keith conseguiu alcançar o nirvana musical que tantas vezes ouço nos discos dele, nos improvisos mais longos - o momento em que você percebe que a música foi ‘além’, que houve uma mágica para além da brincadeira de improvisar no formato de um blues de 12 compassos; em dois momentos as Musas se fizeram presentes, deus estava ali, Universos foram criados e existiram durante alguns segundos, o inconsciente coletivo foi tocado. nomes não importam, conceitos não importam, só a música dele importa.
ter estado presente nestes dois momentos é algo que meu ingresso nunca poderá pagar, é um privilégio, é compartilhar por instantes o olhar de alguém capaz de nos mostrar um mundo mais belo.
pouco provável que eu possa agradecer pessoalmente a Keith Jarrett pelo que ficou dentro de mim após aquele concerto, mas posso, ao menos, improvisar usando palavras para dizer a outros parte do que senti.
só este texto não basta, mas este texto é só o que consigo dizer, aqui, agora.

Quarta-feira
Abr062011

escritores e contadores de história (um ensaio sobre a Escrita)

digo que escrever é uma procura constante da Forma. separo aqueles que escrevem em duas ‘categorias’: os contadores de histórias e os escritores. nunca é tão simples, mas é um começo. (e todo começo é melhor que nada.)

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Quarta-feira
Mar232011

os excessos da técnica: piorando imagens perfeitas

Luis, da divertida newslist “Janela Lateral” [0], mandou um link para a versão ‘colorizada’ da clássica cena do beijo em NY no pós-guerra, uma daquelas imagens marcantes do século XX que já foi citada algumas vezes pelo cinema e da qual muitos lembram porque a mídia ama a mídia e vive recirculando imagens como esta.

‘Está na Wikipedia’, como sempre: http://en.wikipedia.org/wiki/V-J_Day_in_Times_Square

Luis mandou um link para uma versão colorida da imagem, em http://www.sedentario.org/imagens/um-beijo-classico-colorido-34609 

A primeira coisa em que pensei, vendo a versão colorida, foi “nossa, por que é permitido destruir uma foto clássica assim? por que alguém quer fazer isto e por que isso é colocado em circulação?” [1]. E depois pensei: “mas por que não?” [2]. Foi quando resolvi escrever este texto.

Tenho três coisas a dizer, resumidamente:

a. Obras clássicas, como esta foto [P&B, ‘original’], criam um ‘engrama’, uma marca. Elas passam a existir como coisa-em-si: a imagem da cena se torna mais presente do que a cena (que não teríamos visto, de qualquer forma, não fosse pela foto, que se torna parte de nossa memória coletiva). Em casos como este, digo que a representação se torna parte do Real e substitui um fragmento do Real, em vários sentidos. Em parte por isso minha questão de que uma boa ficção nunca será ‘realista’, porque a boa ficção deve ter a capacidade de transcender o Real para se tornar uma coisa-em-si. Ficção a sério pode se distanciar do Real o quanto quiser - ela vai criar seu próprio Universo, vai criar seu novo ‘lugar’ dentro do Real.

 

a1, resumo simplificado: Fotos clássicas têm o poder de se tornar memórias. Ninguém pode ‘colorir’ uma memória, isso falseia a memória, diminui sua força. A cor não faz parte, esta cor não acrescenta nada.

b. Um detalhe técnico: o resultado ficou péssimo. As cores estão artificiais, nem mesmo estão no plano da imagem - olhos treinados as percebem como uma camada adicional (‘overlay’) imposta ao original. É irritante e incompetente.

c. Se vocês pensarem no que eu acabei de dizer em [b] + [c], o que vem a seguir não é óbvio, mas é possível dar um pulo para entender uma outra pergunta que me faço: “por que, então, acho razoável que alguém reinterprete Shakespeare dentro de uma ultra-contemporaneidade e radicalize em montagens novas, mas ao mesmo tempo recuso uma simples manipulação digital?”. 

A resposta a [c] é simples: quando alguém reinterpreta Shakespeare, ou Mozart, ou refilma um clássico, a operação / o resultado só será bem sucedido se a nova versão tiver densidade (criativa, ficcional, estrutural) suficiente para se tornar um ‘novo original’. É possível fazer arte em cima da arte, mas é ppreciso que haja um acréscimo. “Pintar por cima com quadradinhos numerados”, contudo, é algo que um computador faria (como fez) e não acrescenta nenhum significado, nenhuma dimensão ao original. Pelo contrário, algo se perde, se dilui.

 

Meu último tópico é [d]:

[d] Alguém vai pensar que as garantias contra o direito de copiar - o copyright - deveriam servir para impedir esse tipo de manipulação indesejada. Não penso assim. O que está Lá Fora, na Rede, está Aqui Dentro, no Mundo. Informação na rede será modificada porque a idéia de “mudança” é inerente a um Mundo-em-Rede. Copyright é um conceito arcaico, intrínseco ao sistema de produção & comercialização específico dos século 18 a 20, e sempre me espanta quando acordo e noto que ele continua existindo. 

[d2] O que me assusta um pouco, contudo, é que não há muitos mecanismos na rede para que a ‘nova geração’ - meus filhos - sejam capazes de entender que essa imagem digitalmente estragada existia, antes, em outro formato. Dependendo [apenas] do circuito de disseminação e reprodução viral em que esta imagem entrar - ou deixar de entrar, por recusa sucessiva das pessoas na rede - ela irá se tornar, em pouco tempo, o novo ‘original’.

Meus filhos talvez nunca saibam que, um dia, houve uma foto ‘melhor’ que essa, algo que veio antes. Este efeito de apagamento & reescrita constante é, eu sei, inerente à rede. Se opor a isso é como ir a uma praia reclamar que as ondas apagam os desenhos na areia - o mar não vai mudar, a areia não vai se cristalizar.

Mesmo sabendo que o mar é o mar, a rede é a rede, penso que deveríamos encontrar formas de diferenciar o que “veio primeiro”, ou “se tornou mais importante”, já que acredito ser quase impossível falar de “original” [3].

De alguma forma, algo tem que fluir na contracorrente do efeito de apagamento da Rede. 

CDC

 

[0] http://listadajanela.blogspot.com

[1] Estou esperando o dia em que vão me xingar de “ludita”. Ou já estão chamando, mas não na minha cara. No dia em que eu puder ser considerado “ludita”, contudo, vão ter que mudar a definição do termo.  ;-) 

[2] Minhas perguntas típicas costumam ser “por que os computadores ainda não resolvem isso” e “por que somos tão apegados ao passado” e “por que a geração mais nova que eu não está conseguindo lidar com a tecnologia musical para criar algo novo e fica se apegando a uma reprodução do mesmo que mostra uma profunda incompreensão do que a tecnologia poderia estar fazendo” - ? - etc. De onde eu ter escrito [1], acima.

[3] Não sabemos, ou não acabamos de discutir se sabemos ou não, quem foi Shakespeare. Mas sabemos que algumas de suas obras foram ‘escritas por cima’ de outras. Camões escreveu seus sonetos, lindos, muitas vezes em cima de ‘motes’, que eram algumas poucas linhas de “domínio público” em cima das quais diversos poetas escreviam outras coisas. As melhores versões de muitas músicas não são as ‘originais’. A idéia de ‘originalidade’ também me parece ser algo que sobrou do Romantismo, mas este não é um tópico para um parágrafo apenas.