Como escrever – Todos os finais possíveis [parte 2 ou 3 de muitas]
AD 10/2 No meu primeiro ensaio do que agora vai se tornar uma série sobre “Como escrever”, falei sobretudo sobre como não ficar parado, ou seja: como escrever de fato.
E terminei dizendo que não sabia terminar. Um leitor me mandou o seguinte comentário, que está lá no final do artigo, no site:
Pois na minha opinião o final ficou ótimo! de qualquer forma, uma possível solução pra encontrar finais difíceis de achar talvez fosse virar tudo de ponta-cabeça; no final vem justamente o que em principio seria o começo... [Gil]
Sim, Gil: e se fizéssemos exatamente isto? Queria escrever este ensaio,então, só com finais possíveis para histórias que nunca imaginei.
* Quando ela deu por si, notou que tinha voltado exatamente para o lugar de onde saíra.
* Depois daquilo, nada mais seria o mesmo.
* Olhou para trás, pela última vez, fechou a porta e seguiu em frente.
* O que contei é demasiado fantástico para ser verdade e, no entanto, é assim que me lembro das coisas.
* O corpo caiu no chão, sopro de vida desfeito. Guardou a arma. Aquele assunto estava encerrado.
* Achou que seria pior. Quando ele partiu, no entanto, tudo o que ela sentiu foi um grande alívio. Levantou-se e foi arrumar a casa: era um novo dia e estava apenas começando.
Escrevo isso em tempo real, sem pensar. Não abro nenhum livro, não penso em nenhuma história. Na verdade, me esforço para não pensar: o banco de dados que me torna “eu” é demasiado vasto e eu acabaria tentando emular finais de livros que já li e dos quais não me lembro.
Agora olho para o que escrevi e penso no que posso dizer a respeito.
Boa parte dos finais que escrevi parecem trazer uma história em si. Não é casual, eu provavelmente estava tentando escrever frases que não fossem apenas uma frase solta: “Era quarta-feira, e fazia sol” - isso poderia ser qualquer frase de um livro. Mas poderia ser um final, também.
Meus finais improvisados remetem a uma narrativa imaginária que terminou; falam sobre um retorno ou mencionam uma partida; dizem que algo muda definitivamente, trazem uma idéia de ruptura: a morte, um tiro, uma porta que se fecha / se abre, alguém que se vai, algo que ‘se encerra’ ou algo ‘novo’ que o narrador nos diz ser diferente, antes.
São boas pistas de como encontrar um final: pensando no que veio antes dele. Me parece que um bom final pode (não necessariamente, apenas potencialmente) se definir por essa remissão implícita ao que veio antes. Lendo cada uma das frases que escrevi, consigo pensar em muitas histórias que viriam antes delas e terminariam exatamente naquelas palavras.
Não sei quando declaramos que algo terminou. Não sei quando achamos que “já basta”. Por vezes temos limites de espaço, por vezes sabemos que já dissemos o que era essencial sobre um assunto e, nesses momentos bons, mas algumas vezes raros, temos a sensação que uma palavra além daquilo fará ruir todo o castelo de cartas que é um texto.
Um bom final pode até ser “Era quarta feira, e fazia sol”, mas ainda assim esta frase teria que soar como uma ruptura, porque o final precisa romper algo importante: uma estrutura narrativa.
Pensando agora sobre “finais”, lembrei do meu livro de poesias que, para meu espanto, ‘conta uma história’, ou ao menos conta uma história para mim. Não foi escrito para ser assim, não foi planejado; eu sequer sabia quais poesias eu deixaria nele antes que o terminasse. A questão, justamente, é que eu criei “A Sala de Espelhos” pensando no livro inteiro como se ele fosse um enunciado, com princípio, meio e fim.
Ele termina na segunda poesia, um deambulatório que resolvi colocar entre o preâmbulo e a Parte I. Ele termina de novo na quarta capa (a ‘capa de trás’ do livro, como a chamamos) – parece que eu gosto tanto de finais que resolvi colocar vários.
Ele termina assim:
“comunicação”, você me diz, no entanto este texto ressoa apenas tuas próprias palavras: nada do q eu disse, nada do q quisera dizer: nenhum som foi possível aqui.
Há toda uma tese a ser escrita em cima dessa única frase, porque ela resume muitas coisas que tenho a dizer sobre a (im)possibilidade de uma comunicação real; sobre o fato de que um texto nunca é o que se escreve, mas aquilo que alguém lê; sobre o autor ser sempre uma ausência manifestada pelas palavras, enquanto o leitor é quem se faz presente; e sobre o paradoxo que isso tudo implica, já que eu escrevi um livro inteiro de poesia – uma forma da escrita em que o som tem enorme importância – para dizer, no final: nenhum som foi possível aqui.
E no entanto, eu escrevi aqueles textos, assim como escrevi este texto aqui.
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