Avatar = O (brilhante) Retorno de James Cameron
AD 10/1 Não importa se você já leu ou não resenhas e críticas sobre Avatar. Não importa se já viu o filme. O que vou dizer a seguir é relevante para muitos, e mesmo aqueles que “não gostaram” de Avatar talvez possam pensar em novas possibilidades após ler o que se segue. E, mais uma vez, sou fiel a minha postura quanto a falar de filmes: isto não é uma resenha.
Muito já foi dito e muito continua sendo dito sobre Avatar. Inclusive aqui no Doppel. Me parece que, em sua maioria, as críticas ou resenhas se concentram sobre a (suposta) fragilidade / simplicidade do roteiro (não concordo e retomo o tópico em breve) ou sobre quão impressionantes são os gráficos do filme (sim, mas também não é isso que importa).
Por algum motivo, em seus trajetos, os que escrevem sobre o filme têm se esquecido do conjunto (matriz, grafo) muito visível que está centrado em James Cameron, diretor de Avatar – é sobre isso, e sobre como Avatar me parece ser a Obra Prima de Cameron até aqui, que estou centrado.
James Cameron é lembrado pela avalanche de Oscars de Titanic, também dirigido por ele: das 14 nomeações para o Oscar, foi premiado com 11 em 1998. Quantos outros filmes ganharam 11 prêmios na história do Oscar? Só dois: Ben Hur e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei.
Um dos filmes mais caros da história do cinema, Titanic é também o que teve a maior bilheteria, seguido por clássicos como Guerra nas Estrelas, Jurassic Park, novamente O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e, curiosamente (para mim, apesar de achar o filme muito divertido), Piratas do Caribe 2. Esses e outros números estão flutuando pela web para quem quiser saber mais. Muito sinceramente, bilheteria me diz muito pouco sobre um filme, mas ainda assim acho útil para contextualizar.
Um rápido parêntese: não vi e não quero ver Titanic. O filme não me interessa, é tudo o que desejo dizer a respeito.
Voltando a James Cameron e abrindo a rede. Falo de Titanic porque fez tanto sucesso que, passados 12 anos entre ele e Avatar, tudo o que as pessoas parecem lembrar a respeito de Cameron é “foi o diretor de Titanic”. Desculpem, mas ele foi bem além disso, por mais que possa ter sido muito bem sucedido nisso também.
Cameron é roteirista antes de ser diretor. Em Titanic, foi diretor, roteirista, editor e produtor. É muito. Quando se chega a esse grau de competência, na Hollywood dos anos 2000, quer dizer que se tem ao mesmo tempo uma enorme gama de recursos criativos *E* o poder de colocá-los em prática.
Saí de Avatar com uma coisa na cabeça da qual já tinha me esquecido: o homem que criou Avatar foi também o roteirista e diretor de Aliens (no Brasil, com nossa mania bizarra de subtítulos inúteis, ficou Aliens: O Resgate). A “forma” e a “mensagem” existente em Aliens e, muito obviamente, o papel de Sigourney Weaver traziam uma mesma assinatura. Não só isso: o “executivo babaca que quer enriquecer a megacorporação idiota” e o “grupamento de Marines que vão morrer em nome da corporação” já estão em Aliens. Não só isso: o design das naves e dos exoesqueletos de combate dos Marines é igual ao de Aliens.
Os exo-esqueletos seriam muito oportunamente “emprestados” pelo Matrix 3 dos irmãos Wachowski. Os esquecidos dizem que Avatar cita parte do universo pop-ficcional de Matrix e de Aliens, mas Cameron criou a matriz, não a cópia. Os mais lúcidos notam que os militares do Império estão tentando desenvolver os exoesqueletos de combate e já têm protótipos funcionais, um dos quais desenvolvido pela poderosa Lockheed Martin.
Não sou – nem quero ser – a Wikipedia. Não sou sequer a Grande Wikipedia Ambulante – esse é o Bruno Wronski de “Milliways Lounge”, amigo querido que vejo menos do que gostaria e cuja memória é infinitamente superior à minha. O que sou, contudo, é alguém que traça grafos amplos muito rápido e vai confirmar sua topologia verificando coisas na web.
Saí do filme dizendo que, “em termos de algoritmos, Avatar é o Senhor dos Anéis em computação gráfica 3D pura”. É um fato: os efeitos foram criados pela notória WETA Digital que é criadora (e detentora) do algoritmo MASSIVE, usado em Senhor dos Anéis (e cujo poderio é demonstrado claramente no terceiro filme da trilogia). MASSIVE é central para Avatar, que não existiria sem ele.
Retomando o roteiro e os diálogos, criticaram ao extremo os diálogos e a “obviedade” do roteiro de Avatar. Acho que James Cameron jamais será comparado a Shakespeare, ou talvez não chegue nem mesmo a Spielberg. Cameron será lembrado, contudo, pela “eficácia” de seus diálogos simples / simplificadores presentes em Terminator, Terminator 2, Last Action Hero, True Lies. Todos estrelados pelo “Governator” da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. E Schwarzenegger, sem nunca ter se tornado um, digamos, “ator shakesperiano” de habilidades notáveis e incríveis nuances de atuação, tornou-se não só emblemático como…. “the last action hero” (por favor me lembrem de algum outro do porte dele, depois dele – não sei se existe)… e também como o homem que tornou as tiradas “I’ll be back” e “Hasta la vista, baby” parte do repertório pop planetário. Se as frases são dele, de Cameron ou resultantes da interação entre eles… não sei, mas Cameron estava por perto.
Sobre o roteiro, gostaria também de deixar um recado aos que criticam a suposta precariedade do mesmo: Woody Allen, gênio como cineasta e roteirista brilhante, pensador da cultura e filósofo existencialista, é fã notório de um dos grandes mitos cinematográficos de todos os tempos: Casablanca. Quem quiser dissertar sobre a criatividade, originalidade, profundidade filosófica e sentido geral do roteiro de Casablanca… por favor, o espaço para os comentários está aí para isso.
O que se perde duplamente, nas críticas ao roteiro / diálogos, à “obviedade” da mensagem ambientalista e anti-imperialista (os UltraConservadores da Direita Retrógrada do Grande Império Transnacional do Norte, que tanto amam Hollywood e sua função de garantir o status quo do Império e de suas Legiões, aparentemente estão furiosos com o filme) … mas que também se perde na apologia ao filme como uma glorificação dos efeitos de computação gráfica em 3D é que Cameron conseguiu um resultado fantástico e emocionante ao combinar as duas coisas.
Como em Casablanca, não importa se Bogart é um clichê de si mesmo ou se a trama faz tanto sentido quanto, digamos, a trama de outro clássico, O Falcão Maltês do inquestionável John Huston, criador de mitos. O que importa é que, quando as múltiplas peças necessárias para criar um filme se juntam, o resultado emociona e nos faz sair do cinema embevecidos, transportados para uma outra dimensão.
Não vou defender que Cameron seja um grande pensador da cultura ocidental. Não sei nem se quero defender que a estética e o ethos de Avatar, que me parecem ir um pouco na contramão do militarismo corporativo imperialista Hollywoodiano (coisa que pode ser dita, com a mesma pertinência, sobre Aliens), seja “central” ao filme.
Desejo apenas abrir um pouco essa rede de redes em que Avatar vem se inserir e situar, como acabo de fazer, o papel de James Cameron em tudo isso. E, talvez até mais que isso, deixo minha mensagem no vasto mar cibernáutico de que há muitos motivos para ver Avatar, até mesmo para poder pensar em seu papel dentro da atual topologia da matriz.
I’ll be back!
Reader Comments (3)
Antes de qualquer coisa, faça um favor a si mesmo, deixe o preconceito de lado e veja "Titanic". Como filme funciona muito melhor do que "Avatar" que é fraco, previsível e que, muito provavelmente, estará ultrapassado tecnologicamente em alguns anos -- se será pelo próprio Cameron ou não, isso é outra história.
Vamos corrigir alguns fatos:
1) "Last Action Hero" não é escrito, nem produzido, editado e muito menos dirigido pelo Cameron.
2) A maior bilheteria do mundo é "Avatar" seguido por "Titanic", "O Retorno do Rei", "Piratas do Caribe 2" e "O Cavaleiro das Trevas". Os clássicos "Guerra nas Estrelas" e "Jurassic Park" aparecem respectivamente em 10º e 12º, números que, como você disse, estão flutuando na web para quem quiser saber mais a respeito.
Primeiro, não use "Casablanca" como um exemplo de clichê que é reverenciado como um dos grandes clássicos do cinema. Há uma grande diferença em se fazer uso de clichês do cinema e inventar esses clichês. E "Casablanca" é exatamente isso: um filme que, acima de tudo, definiu um estilo que foi exaustivamente copiado por outros filmes com o passar dos anos. Segundo, não há problema em se usar clichês. Eles existem para serem usados porque cumprem o seu papel. O problema é fazer uma história rasa e usar mal os clichês. E esse, meu caro, é o maior problema de "Avatar".
Fosse qualquer outro diretor eu nem me surpreenderia tanto. Mas o mesmo Cameron que pegou todos os clichês dos filmes de ação e fez uma comédia rasgada como "True Lies"? Ou ainda, que pegou os clichês de dois gêneros diferentes, como o de filme catástrofe e o de romance açucarado e fez "Titanic"? -- aquele filme que você não viu e nem quer ver, porque não te interessa, lembra?
Peguei esses dois filmes só pra ilustrar que o Cameron tem (tinha?) domínio não só da linguagem cinematográfica, mas também dos clichês que são ingredientes necessários a filmes de grande apelo popular -- não fosse isso ele não estaria nas duas primeira posições das maiores bilheterias de todos os tempos -- e fazer filmes que funcionam. E "Avatar" não funciona. O filme é vazio e a suposta mensagem ecológica e/ou anti-imperialista chega ser constrangedora até mesmo para um diretor/roterista medíocre, quiçá para o Cameron.
O visual do filme é bonito e revolucionário? Sim, é acachapante. Mas é só isso. Passados os minutos iniciais daquele mundo azul, os minutos que se seguem até o desfecho da história são cada vez mais previsíveis e irritantes. Ah, e já que falamos do visual, se o roteito em si já é uma repaginada 2.0 de Pocahontas, chega a ser chocante saber que toda a concepção dos Na'vi é idêntica a de uma história em quadrinhos. Até nisso o Cameron sai perdendo.
Dito isso, vale uma última observação: "Avatar" só presta no cinema e em 3D. Pelo menos dá pra aproveitar uns 40min de projeção pela novidade do bom uso -- e isso é importante ressaltar -- da tecnologia. Fora isso é um desperdício de tempo e dinheiro e um programa muito aborrecido.
Avatar é acachapante e só isso? Eu ainda me debato em relação a esse tipo de comentário...Q mais devemos achar q se pretendia?
Discordo qdo se diz q o filme não funciona. Funciona, sim, tanto q apesar de enumerarmos nossas queixas, saímos dos cinema com a impressão de q o filme é...acachapante?...hum, eu diria, de novo, deslumbrante.
Não é puro efeito visual massante e ostensivo - é o uso da tecnologia bem encaixada no contexto de uma história. Se a gente jogar fora os óculos 3D, os efeitos perdem em densidade, mas ainda assim o filme se salva nos muitos recursos q conjuga. E, bem, qual é a finalidade de se jogar fora os óculos 3D se o filme foi feito pra ser visto com eles? A intenção é aberta, o diretor tem q explorar ao máximo os recursos q tem, mesmo os superficiais.
Acho chato isso de "como Cameron foi capaz de ter feito isso depois de ter feito aquilo"? Acho chato essa cobrança eterna com os mesmos compromissos e, se querem saber, pode-se até dizer q ele foi ousado ao expor-se em caminhos q alguns julgam contraditórios. Após Humberto Eco escrever "O Nome da Rosa', rolou uma coisa de autor de um único livro, uma obra prima. Qdo o cara continuou a escrever, houve quem se decepcionasse só com a notícia de q sairia um segundo livro, pq rompia com um certo misticismo. Isso pra mim não faz o menor sentido!
Penso q a grande pergunta em relação ao resultado do filme (desse e de qualquer outro) tá relacionado ao q se pretendia realizar. O filme é simples, uma produção caríssima pra se contar uma história simples. E, pra mim, Cameron foi muito feliz em contar essa história, por isso o filme funciona. Ele conseguiu tornar rico algo essencialmente simplório. E ofilme é impactante. Mesmo pra quem, como eu, vai arrastada pro cinema numa "obrigação", é, tem q sucumbir ao talento do cara (mesmo querendo brigar com isso...)
Discordo do Carlos só em relação ao filme ser a obra prima de Cameron, nos demais comentários dou a mão a ele. Meu preferido é "True Lies" pois gosto das coisas q fazem a gente rir de si mesmo, de um certo sarcasmo. Aliás, gosto de coisas q façam rir. Mas não tenho a ilusão de q deverei aprisionar autores a uma de suas habilidades, só pq ela seria, na minha opinião pessoal, a melhor delas...
Eu não quero discutir a qualidade do filme os as comparações sobre outros filmes de grande bilheteria, so quero deixar aqui registrada a minha satisfação com Avatar por ressuscitar Pocahontas. Mesmo enredo, mesmo desenrolar... tem até a mãe árvore